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Constructo de Alba Atróz

Foto: Marcio Fernandes

Foto: Marcio Fernandes

Ao abandonar a família…, melhor dizendo, seus cinco filhos e esposa, em 1982, ano de Copa do Mundo, meu pai também deixava os amigos, desfalcava o time do A.E Brasil F.C e os queridos e antigos campos de várzea do bairro de Guaianases, onde costumava jogar como lateral direito.

Ao ser mandado embora de uma padaria da Sta. Efigênia, na qual trabalhou por quase dez anos, pegou os direitos trabalhistas, dizendo-se cansado da vida e do casamento, gastou praticamente todo o dinheiro com uma viagem à Bahia, sua terra natal, e voltou com dúzias e dúzias de fotografias que mostravam pontos emblemáticos da terra de Jorge Amado e Caymmi, entre eles o Farol da Barra, o Pelourinho e a Praia de Itapuã.

Ao retornar ao lar, gabando-se dos lugares e pessoas que conhecera por lá, trazendo lembrancinhas em formato de barquinhos, petecas, um berimbau, conchas pintadas e saudações de entes que desde criança não via, recebeu um chacoalhão de minha mãe tentando acordá-lo para a realidade: estava desempregado e com filhos pra criar. E que aquilo tudo que trouxera não ia alimentá-los e nem fazer melhora para o lar. Após discutirem bastante, ele pegou o pouquinho que restou, juntou com o da venda de uma velha sanfona e montou uma bomboniere no quintal, um negócio que não deu certo por conta da própria impaciência de meu pai, que passou a ter outros planos e outros objetivos dizendo que aquele negócio não dava tanto retorno, era pouco dinheiro.

Numa conversa com colegas que trabalhavam numa empreiteira, soube que um grande empreendimento ia ser erguido próximo da Praia da Enseada, Guarujá, isso acendeu seu ânimo, viu como uma válvula de escape de todo aquele sufoco vivido dentro do lar. Não pensou duas vezes, candidatou-se a uma das vagas, arrumou as malas com uma mentira de que ia só ficar por lá até a construção acabar e que ia mandar dinheiro todo mês para nos sustentar, mas foi aos poucos deixando de cumpriu sua promessa. No litoral se estabeleceu, foi ficando, ficando, fazendo-nos visitas rápidas e apressadas, mal dando tempo de matarmos a saudade dele, jogava uma pelada entre os amigos no campo e depois sumia. Começou a aparecer anualmente, depois de dois em dois anos e, antes de parar de vir, me chamou para ir ver o campo e reencontrar o pessoal que há muito tempo não via.

Atravessamos então a avenida, a pontinha do córrego, andamos por uma típica trilha por entre árvores que ainda existiam e começamos a escutar barulhos de tratores, caminhões, máquinas e gritos de ordem de serviço. Tal foi o espanto ao ver a sede do time desmoronada e o terreno todo esburacado. Um apito de um segurança nos proibiu de seguir adiante dos tubos, canos, postes, fios e outros materiais espalhados por toda a parte.

– Vem, vamo voltar pra casa! – disse meu pai dando-me as costas e se pondo a caminhar de volta pela trilha.

Naquele ano, a melhor seleção também perdeu a copa. Hoje, olhando pela janela da classe da minha escola, construída por sobre o antigo campo em que meu pai jogava, relembro desse nosso último momento em que ele, após perceber que seu passado estava sendo engolido pelo progresso avassalador e que nem com seus amigos tinha mais vínculo, arrumou as malas naquele mesmo dia, deu um beijo em cada filho e na esposa e nunca mais voltou.

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