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A admissão de uma nova vida

Por Guilherme Ramos

Todo escritor precisa ler. Não muito, só umas 50 páginas por dia. No meu caso, demorei alguns anos para gostar de livros. Na escola, sofria para avançar as páginas que apareciam em minhas mãos. Com 14 anos, no entanto, um amigo me apresentou J. R. R. Tolkien e, desde então, convivo diariamente com a leitura.

Ao terminar a trilogia de “O Senhor dos Anéis”, comecei a esboçar os primeiros textos. Eu escrevia frases de amor e saía com um amigo entregando nos apartamentos das meninas mais bonitas do condomínio que morava – as cartas e as entregas, evidentemente, anônimas. Até onde sabemos, nunca ninguém descobriu, e, também, nunca conseguimos obter o que desejávamos. Mas era prazeroso escrever e sentir a adrenalina da entrega.

Na faculdade, me tornei um cronista engavetado, ou melhor, um escritor de apenas um leitor. Tudo o que escrevia, era soterrado nas gavetas pela minha timidez ou narrado para a minha tia quando ela suportava me ouvir. Perceba que não havia nenhum leitor, somente uma pessoa com a bondade de ver os outros se desenvolverem. Mas quando chegou a exaltação dos blogs, me aventurei na internet, ainda que receoso com o meu ser, as minhas ideias e toda a tecnologia que entrou em nossas vidas sem pedir licença.

E eu continuava lendo. Nessa época, o livro de Gabriel García Marquez, “Memórias de Minhas Putas Tristes”, e a crônica “Pipoca”, de Rubem Alves, escreveram sublimes sentimentos em meu coração. Com Marquez me diverti à beça e registrei o desejo de escrever com estilo fácil, simples e refinamento constante; com Alves, “minhas ideias começaram a estourar como pipoca” em direção àquilo que gostaria de me tornar.

Enquanto não estava com os olhos grudados em uma página, inventei de ser redator publicitário. De início, estagiei sem ganhar nada por três meses, apenas conseguindo sobreviver. E fui passando por outras agências, como é habitual na área de comunicação. Após ter recebido o diploma, fui demitido do cargo de redator, com a justificativa de que a escrita não era o meu forte. Consegue imaginar o impacto dessa notícia? Pois é, meu mundo parou e a escrita também.

Então, fui fazer terapia com a própria vida. No curso de Psicanálise e Psicologia Econômica, aprendi que “a razão é escrava da emoção e existe para racionalizar a experiência emocional”. Nas leituras complementares do curso, me dei conta de que a emoção interfere significativamente na nossa capacidade racional, tornando-nos vulneráveis a qualquer estímulo.

Se pudéssemos fatiar fino, como sugere Malcolm Gladwell, em seu livro “Blink – a decisão num piscar de olhos”, seria mais ou menos assim:

Os grandes tomadores de decisão não são aqueles que processam a maior quantidade de informação possível, nem aqueles que usam uma grande quantidade de tempo analisado, mas sim aqueles que aperfeiçoaram a arte de filtrar poucos fatores importantes dentre um grande número de variáveis.

Duvidar também é um aspecto importante nas tomadas de decisões do dia a dia. Os autores Philip E. Tetlock e Dan Gardner, no livro “Superprevisões – a arte e a ciência de antecipar o futuro”, sugerem o que os psicólogos chamam de viés de confirmação:

Raramente procuramos uma evidência que contradiga nossa explicação inicial, e quando essa evidência é esfregada em nossa cara, nos tornamos céticos motivados – encontrar motivos, por mais débeis que sejam, para menosprezá-la ou descartá-la inteiramente.

Assim, fui me recuperando do baque da demissão – lendo e, raramente, escrevendo. E por ter freado a caneta, caminhei por outras áreas: setores de marketing, estúdio de fotografia, teatro e, no destino final da conturbada jornada, gestão de pessoas. Nesta última função, vivi instantes maravilhosos em matéria humana, mas também absorvi boa parte da amargura enraizada do mundo corporativo. Para descarregar a tensão, escrevi o meu primeiro livro, “Alltruísmo”. O que fora, portanto, um trauma de uma demissão, possibilitou-me a admissão de uma nova vida. Em 2017, dois anos após o primeiro lançamento, veio o segundo livro, “Entre Janelas Mágicas”.

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Ao olhar no retrovisor, a vida me ensinou que, mesmo em situações que julgamos ser desagradáveis, o melhor sempre acontece para cada um. E hoje, ao escrever, sinto-me útil e integrado à vida, pois reconheço o meu caminho, representado nas palavras de William Zinsser, em seu livro “Como Escrever Bem”:

Assim como levamos muito tempo para sermos nós mesmos, é preciso muito tempo para encontrarmos a nós mesmos como donos de um estilo singular, e, mesmo depois disso, nosso estilo irá modificar-se à medida que ficarmos mais velhos.

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