Alimente sua alma. Inspire Sonhos!
Telefone
A Última Hora da Estrela

Por Dabliu

Sentada à escrivaninha, em frente à lareira, ela rabiscava com o lápis o canto superior direito do papel. Lá fora, o barulhinho da chuva seria uma desculpa-inspiração para começar a escrever. Traçou um forte retângulo ao redor da data, depois batucou com o lápis na madeira e coçou a cabeça de cabelos brancos em busca de um insight que trouxesse as palavras para aquela sala gelada. Nada. Largou o lápis em cima da escrivaninha e saiu, junto de sua bengala, lenta, em busca de um gole de café quente, em busca de palavras. Seu nome era Poesia, dado pela mãe antes mesmo de nascer, em homenagem a um velho sonho que não vingara. Enquanto ela caminhava lentamente, seus passos arrastados, só se ouvia o “tac” da bengala a cada dois segundos, e a chuva. As palavras iam surgindo, desconexas, sem sentido, das coisas que via, mas nada lhe trazia o que procurava. Nada fazia sentido. Não escrevia mais como outrora, quando a rapidez de se escrever era deveras pouca para a enxurrada de palavras que surgia. Tempo aquele quando os homens notavam a importância das palavras, e o som e o sentido que elas tinham. Hoje? Cada um estava ocupado nas suas coisas pseudo-mais-importantes-que-a-vida. Poesia resistia. Era mesmo uma sobrevivente.

Morava ali, com mais seis pessoas, naquela enorme e silenciosa casa. Já senhora, agora, pouco tinha a fazer a não ser procurar, e procurar, e procurar enfurecidamente pelas palavras que se escondiam dela. E quão ousadas eram! Nos anos dourados que já andavam desbotados nas fotos e na memória, as palavras se divertiam como crianças que brincam e naquele momento a missão mais importante do mundo é capturar. As palavras se escondiam nos blocos de anotações aos montes nos escritórios do seu filho, na lista de compras presa por um ímã na geladeira por sua nora. Nos livros abandonados na estante do quarto dos netos, que sem piscarem, passavam a maior parte do tempo jogando videogame. A mágica se esgotou, o trabalho era unilateral, sem resposta, sem brilho, quase sem relevância. E Poesia na sua cadeira de balanço dançava a dança do tempo, como um pêndulo, contando as horas.

Imagem: HeitorPC

Poesia escutava a chuva, mas ela já não cantava mais. Era um ruído ensurdecedor que desmantelava pedacinhos microscópicos do telhado e que não deixava pensar. Pensar em quê, se nada havia para se pensar? Sol e chuva, sol e chuva, sol e chuva, era uma alternância sem fim e sem razão. Ambos só atrapalhavam. Um fazia aquele dia de terno e gravata insuportável, todo o corpo suava, e as mãos grudentas se queriam lavar-se a si mesmas a cada cinco minutos. O outro servia para sujar os carros e tornar o trajeto ainda mais lento e engarrafado. Acordar, reclamar, trabalhar, reclamar, ir para casa, e reclamar, reclamar do tempo que faltava em casa, e que sobrava nas oito horas anteriores, da gritaria das crianças, daqueles quadros sempre tortos na parede e do tapete embolado na frente da pia da cozinha.

E Poesia observava já tão velha que nada mais a espantava. Não estava acostumada, mas conformada. Ela queria que a vissem, mas ninguém a via. Ela queria que a ouvissem, mas ninguém ouvia. E um dia, quando lá fora a chuva fazia seu costumeiro ruído, e a lareira tentava em vão dominar o frio que descia queimando, Poesia morreu, mas ninguém notou.

Créditos das ilustrações: HeitorPC

Adicionar Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios são marcados *