Alimente sua alma. Inspire Sonhos!
Telefone
E o sonho tornou-se realidade (Parte II)

Por Vasco M. N. Pereira

Pediu-me o Jean Mello que continuasse com esta minha veia escritora, coisa que não tenho. Sinto-me como peixe fora d’água. Penso que a minha actividade musical é tão pouco interessante… Mas ele, o Jean Mello, lá sabe. O blogue é dele. E dou por mim aqui a pensar, nesta terra fria e húmida, que o nevoeiro não nos larga: ainda não percebi como se escreve, blogue ou blog?

Agora reparo que tenho tido muita sorte. Tenho encontrado ao longo da minha carreira musical sempre gente de altíssimo valor e qualidade, seja em nível musical, seja noutras áreas artísticas, ou na parte pessoal. Não vou tentar escrever por ordem cronológica. Escreverei por ordem arbitrária. Um pouco assim ao “Deus dará”.

2009. O quinteto de sopro italiano “I Cinque Elementi – Wind Ensemble” de Pádoa, Itália, encomenda-me um quinteto: Os 5 Elementos. Estreia em Graves – Bordeaux, França. Era o mês de Julho. Mês do “Tour de France”. A volta ciclista do nosso amado Joaquim Agostinho. Foi a primeira obra tocada fora da Península Ibérica.

Cinco excelentes músicos. Claudio Fanton, oboísta, grande arranjador e orquestrador. Professor de Matemática, astrólogo e não sei quantas coisas mais. Excepto a fagotista Elena Bisotto que era e é professora de fagote, todos os outros tinham outras profissões distintas à música. Amadorismo puro, elevado a um grau de profissionalismo imenso e intenso. Não sei se um profissional conseguiria trabalhar tanto como eles. Dava gozo vê-los ensaiar. Com eles aprendi, vi e senti o que era realmente a paixão pela música entre outras coisas.

Achei muito interessante o local de concertos: uma adega transformada em auditório. As pipas ainda lá estavam. Após o concerto, uma degustação de vinhos e produtos regionais. Só os franceses para estas coisas. Ah! E as cadeiras eram de metal, daquelas que se dobram. Nada de “sofás” ou cadeiras almofadadas, que custam muito dinheiro. “Ali vai-se a escutar música!” – disseram-me. E pagam-se entradas. Porque tudo custa dinheiro. Têm razão.

Qual Pedro Álvares Cabral, ainda que de forma mais comodista e sem arriscar a vidinha, lá cheguei ao Brasil. Sim. Que isto da internet, é só pedir e “clicar”. Quem me abriu a porta foi um quarteto de clarinetes: o quarteto de clarinetas Ómega. Músicos do Rio de Janeiro, grandes profissionais. Escrevi para eles “Fadossambeado”.

No Brasil, mais para os lados de São Paulo e só por mero acaso, encontrei uma cantora maravilhosa. Hoje uma grande amiga: a Ana Luísa Ramos. Somos uns amantes da nossa rica e maravilhosa língua. Quer tenha sotaque ou não (ela tem sotaque de São Paulo e eu tenho sotaque alentejano). Basta escutar o seu CD “UM” para nos apercebermos disso, do sotaque e da paixão dela pela literatura nossa. E como escreve bem, a “moça”.

Tive o grato prazer de lhe escrever um ciclo de sete canções com acompanhamento de quinteto de cordas e piano. Este ciclo está baseado em poesia de autores portugueses e brasileiros (tal como a nossa parceria). Ainda não tivemos a sorte do nosso lado… Pode ser que seja neste ano.

Para o Cuarteto de Clarinetes VERT (Salvador Navarro, Pepe Quilís, Salvador Catalá e Antonio Chavel) escrevo um concerto para quarteto de clarinetes e banda sinfónica. E já lá vão dois anos que ando com este projecto, tendo María Velasco como solista e excelente soprano.

Em 15 de Maio de 2016, no IV Prémio Literário Glória de Sant’Anna, minha grande amiga, a poetisa Inez Andrade Paes, organizadora do prémio e filha da poetisa Glória de Sant’Anna, escreveu-me uma obra prima da literatura contemporânea portuguesa, que eu chamei de Cantoriana Marítima: I – Mar Falante, II – Transparente Luva de Água e III – Flores de Acanto em Marfileno Lençol (a compor no próximo ano). Esta obra é um conjunto de três cantatas cada uma com uma orquestração distinta.  O libreto é bilingue português-francês e é um relato músico-vocal sobre Vasco da Gama e Jean-François de La Pérouse. 

Em 2016, os coralistas  do CPHC, João Coco, Marciano Bagorro e Tiago Carlos e eu participamos do IV Prémio Literário Glória de Sant’Anna, em Válega.

Dirigi o Coral Públia Hortênsia de Castro de Elvas, no Forte da Graça em Elvas. Se há gente que gosta de cantar são os coralistas amadores. Mas para um director de coro são, por vezes, um enorme pesadelo e uma grande dor de cabeça. 

Com a soprano francesa Sabine Steffan nasceram alguns projectos muito interessantes: Cantoriana Marítima poema sinfónico-vocal sobre Vasco da Gama e Jean-François de La Pérouse com libreto bilingue português-francês de Inez Andrade Paes, Ave Maria, Pater Noster, Poème de l’âme – 7 poemas para soprano e guitarra e “Bonsoir Madame la Lune” para Soprano Solo, Coro misto a três vozes e piano, com texto em francês de autor anónimo. 

Para a excelente flautista italiana, Rita D’Arcangelo compus “Atlântico” para flauta solo. Esta obra sairá em 2018 no próximo CD da flautista. Para esta virtuosa da flauta transversal escrevi mais duas obras, uma com guitarra outra com acompanhamento de piano. Foi no “Salón de Actos de la Diputación Provincial de Badajoz” que escutei “Atlântico” pela primeira vez em som directo. A estreia tinha sido em Tóquio, Japão, no dia 1 de Outubro de 2013. 

A Diputación Provincial é um órgão político regional e funciona como uma espécie centro de apoio a todas as autarquias. Tem um parlamento e orçamento próprios.  O “salón de actos” é a sala do parlamento e foi, noutros tempos, a sala de festas do casino. A orquestra, ainda que apertada, estava no local onde tocava antigamente a orquestra do casino.

E lá consegui chegar ao Alentejo!

Intervenientes na estreia do Stabat Mater – Elvas, 28 de Outubro de 2016 – Sé de Elvas: Teresa Garcia – Violoncelo, Beatriz Caballero – Violino, Rita Moldão – Soprano, Eu, Cátia Moreso – Mezzo-soprano, Teresa Portillo González – Viola, Sara Álvarez-Borbolla – Violino, Rosa Escobar – Viola (Legenda criada por Vasco Pereira) 

E com nada mais nem nada menos do que uma estreia mundial: Stabat Mater! 

Contei com a colaboração de duas magníficas cantoras portuguesas: Rita Moldão e Cátia Moreso, soprano e mezzo-soprano, respectivamente. Colaboraram na parte instrumental três ex-alunas minhas, Sara Álvarez-Borbolla, Teresa Portillo González e Rosa Escobar.

Do Alentejo, saltei para a Grécia. 

Switch, um CD – Um trio grego, Galan Trio, e 6 compositores de 6 nacionalidades diferentes escreveram 6 peças originais: Thomas H. Bramel (USA); David Haladjian (Arménia/Suiça); Vincent Kennedy (Irlanda); Vasco M. N. Pereira (Portugal); Harald Weiss (Alemanha); Nikos Xanthoulis (Grécia).

Em Janeiro de 2018, escrevi uma peça para flauta, violino e bandolim ou mandolina, em italiano, para o trio italiano Fiori D’Inverno.

Alguns projectos musicais que fundei

Fundei a Orquesta Luso-Española em 1996. Com alunos de um e outro lado da raia.

Lembro-me bem de meu primeiro concerto em Lisboa. Tocámos o nº 2 dos concertos Brandenburgueses em Fá Maior, BWV 1047 de Johann Sebastian Bach, a Abertura de “L’Amore industrioso” do alentejaníssimo João de Sousa Carvalho e a Sinfonía nº 41 em Dó Maior, “Júpiter” KV 5514 (1788)  de W. A. Mozart.  

Tocámos Polkas e Valsas da família Strauss e as Danças Húngaras de Joahnnes Brahms. Concerto patrocinado pelo Ateneu de Badajoz.  

Em 30 de Abril de 2006, no Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa. Segundo concerto já com uma nova fornada de futuros músicos. Estreia da minha suite – Guadiana entre duas pontes. Para além desta obra, tocámos a suite de “O Lago dos Cisnes” de P. Tchaikovsky, só faltou mesmo foi o “ballet” e Valse Triste de J. Sibelius. 

Oito destes meus alunos seguiram a carreira musical e outras carreiras, como as de médico, jornalista, professor… Gente brilhante em qualquer uma das formações. Aprendi muito mais com eles do que eles comigo. 

Dava-me um gozo enorme trabalhar com os músicos da Cameraʇta Iberica Quintet: Alfonso Pineda (Clarinete), Amadeu d’Oliveira (Piano), Cecília García (Saxos), Antonio Mateu (Saxos), Ruben Venegas (Trompa). Cinco músicos excepcionais e ainda melhor gente. Aprendi muito com eles. Tinham tanta musicalidade! 

O trompista Ruben Venegas também passou pela Orquesta Luso-Española na sua primeira formação, ainda que por pouco tempo. Esta formação realizou uma homenagem em Ovar, no dia 3 de Julho de 2011, onde apresentámos em estreia várias canções com poemas (e que poemas!) da poetisa Glória de Sant’Anna: MAR, ASAS, O PESCADOR, É O VENTO, MÁGOA. Foi soprano solista a minha amiga Jacinta Almeida. 

Para além destas canções, apresentámos “Esclavos Felices”, de Juan Crisóstomo de Arriaga (compositor espanhol, 1806 – 1826) e Suite orquestral número 3 em Ré Maior BWV 1068 de Johann Sebastian Bach. Tudo arranjos meus. Deu-me cá uma trabalheira! Não se pode estragar a obra dos Mestres. Há que se ter muito, mas muito cuidado na hora de transcrever cada nota, conhecer bem os instrumentos, os seus limites… Dos músicos não quero saber. Eles que estudem, que para isso se lhes paga. Ou não.  

Por acidente meu este projecto ficou parado. Talvez um dia volte… 

 Campo Maior, 5 de Junho de 2018.

 

 

 

 

 

 

 

2 Comentários

  • Ana Luísa Posted 6 de junho de 2018 00:46

    Vasco, sou muito sua fã!
    Adoro suas músicas e seus textos. Prazer em ser sua amiga!

    • Vasco Manuel Nabeiro Pereira Posted 6 de junho de 2018 14:11

      E eu seu, minha querida amiga!

Adicionar Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios são marcados *