Alimente sua alma. Inspire Sonhos!
Telefone
“Eu vejo um céu timbrado em ilhas”

Cantor, compositor, poeta, contista e romancista, um artista completo. Dabliu está entre nós para desvendar um mundo com outras marcas, não apenas as belas.

Confira a segunda parte da entrevista com Dabliu. Se ainda não leu a primeira parte, clique aqui.

Inspirando Sonhos: Queremos saber mais de seu lado escritor. Conte-nos livremente.

Talvez a escrita tenha vindo para mim antes da música. Inventar, fabular, escrever, sempre foi uma porta de saída e uma necessidade gigantescas, ainda que muito jovem eu não tenha me dado conta que podia. Na liberdade da infância, me lembro que escrevi uma primeira estória, que era “o conto do coelho que nasceu quadrado”. Daí em diante, eu inventava ideias de romances, escrevia capítulos, inventei que tinha uma editora junto com duas amigas de escola, mas a vontade nunca foi maior do que a coragem de mostrar e acreditar que aquilo tinha algum valor e eu acabava rasgando e jogando fora.

Até que, ainda adolescente, li o “Cartas a Um Jovem Poeta” (eu já contei isso dezenas de vezes porque acho que foi uma das descobertas mais importantes da minha vida, indico a todo mundo), do Rainer Maria Rilke, quando ele pergunta a um jovem que gostaria de ser escritor: – “Se não pudesse escrever, você morreria?”. Diante da resposta a essa pergunta, e do entendimento do que significava ser um artista, é que eu perdi a vergonha (ou ganhei a coragem) de assumir ao mundo e a mim o que eu era. Ou começar essa busca. Entendi que ser artista era uma condição e não um título, e eu não deveria ter medo de admitir porque havia nascido assim. Iria morrer sentindo essa necessidade de criar, se eu não posso fazer é como se estivesse morto. Tem um parágrafo da escritora Pearl Buck (peço licença para citar aqui) que quando eu li, também por volta dos quinze anos, foi quase um tiro no meu peito:

A mente verdadeiramente criativa em qualquer campo não é mais que isto: uma criatura humana nascida anormalmente, inumanamente sensível. Para ele…, um toque é uma pancada, um som é um ruído, um infortúnio é uma tragédia, uma alegria é um êxtase, um amigo é um amante, um amante é um deus e o fracasso é a morte. Adicione-se a este organismo cruelmente delicado a subjugante necessidade de criar, criar, criar – de tal forma que sem a criação de música ou poesia ou literatura ou edifícios ou algo com significado, a sua respiração é-lhe cortada. Ele tem que criar, deve derramar criação. Por qualquer estranha e desconhecida urgência interior, não está realmente vivo a menos que esteja criando.

Pronto. Aquilo ali era eu, sou eu. Daí em diante, fui aprendendo aos poucos aquilo em que dedicaria a minha vida. E descobri que escrever era o ofício que eu deveria colocar o meu viver. Nisso, entra a música, um dos meios para dizer o que preciso dizer. Depois disso é que realmente percebi que queria ter uma carreira na academia, o que me levou a me formar em Economia, fazer mestrado e doutorado. Ser professor e pesquisador é um desdobramento dessa necessidade de criar. E por fim, já em Londres, me dei conta de que gosto bastante de escrever. Lancei dois discos e ainda não havia publicado nenhum livro. Então, estou trabalhando em um primeiro livro de contos que finalizo até o final do ano e tem uma relação direta com o meu blog Confesso Que Senti, além de um romance ainda sem prazo de lançamento. Nesse blog eu publico contos ficcionais quinzenalmente. Atualmente, estou numa fase muito especial por lá, no quarto capítulo do “Conto da Raposa Vermelha”, que era para ser um simples conto e se tornou um minilivro que publicarei em breve. Tudo no tempo que as coisas precisam para amadurecer e tomar forma. O primeiro de contos está pronto, só falta editar.

Inspirando Sonhos: Morar em Londres contribuiu ainda mais em sua compreensão de Brasil ou, nesse sentido, não influenciou em nada?

Enquanto estava lá, li uma frase do Samuel Johnson que descreveu perfeitamente o que eu senti: “quem cansou de Londres cansou da vida”. A partir do momento em que coloquei os pés na cidade tive a impressão de que aquele lugar mágico e imaginário, que eu havia inventado na minha infância, onde finalmente eu pudesse ser invisível, existia. As pessoas lá experienciam um tipo de liberdade em que os outros não se importam negativamente com como você se veste ou parece, isso é só você. Como você se veste é só um mero reflexo da sua personalidade que, por definição, vai ser diferente, porque todo mundo é diferente. Eu continuei a minha vida, podendo andar a pé ouvindo música, sentar numa praça e escrever, ver o sol se pôr da famosa London Bridge, sentar e escrever ali mesmo, cantar ao ar livre. Pode ser também apenas a minha percepção de estar em outro país, numa outra língua em que eu não era ninguém, só um brasileiro. Essa liberdade, também diretamente ligada ao não medo da violência, em que as pessoas realmente se sentem donas dos espaços, é o ideal que eu gostaria de contribuir para que o Brasil atingisse também, e acredito que ele vai. Cada eleição deveria ser uma oportunidade de transformar nosso país em um lugar onde as pessoas pudessem ser, como é previsto na Constituição, o direito de ir e vir, direito de existir. Acho que não mudou minha compreensão de Brasil, mas mudou a minha autocompreensão enquanto brasileiro. A compreensão de todas as minorias das quais faço parte. Ser brasileiro, negro, não heterossexual. Ter raízes pobres como a maioria da população tem e ter de lidar a vida inteira com o classicismo das pessoas, precisando provar o tempo todo que você merece estar ali onde está. Isso não é ser livre. O mundo tem uma ideia do brasileiro que talvez não seja a mais adequada ou reflita a realidade, mas aqui dentro mesmo já sofremos tudo o que pensamos que poderíamos sofrer lá fora. Nascer com “Silva” no sobrenome já é uma luta primária. Por outro lado, aumentou em mim o orgulho de ter nascido brasileiro e fazer parte de uma geração que começa a pensar nosso país de uma maneira mais realista. Não considero que o país esteja atrasado com relação aos países desenvolvidos, nós somos ainda muito jovens para ter as coisas consolidadas e, portanto, ainda temos muitos problemas para resolver. Apesar do passo atrás que estamos vivendo agora politicamente, eu sou muito otimista com a nossa situação. Não faz nem duzentos anos que o Brasil é independente, e sabemos que, na prática, nossa independência relativa só se tornou maior nos últimos cem anos, sendo otimista. Na Inglaterra, dos lugares em que eu passei, é muito difícil encontrar um lugar com chão de terra que não seja a grama plantada e cercada perfeitamente onde as pessoas quiseram colocar. Nós ainda estamos plantando nossos gramados, ou descobrindo que existem saídas melhores para cuidar do que é nosso.

Inspirando Sonhos: Quais são seus projetos em andamento que já podem ser noticiados para o público que te acompanha ou passará a te acompanhar após essa entrevista?

Vivo a fase mais prolífica talvez da minha vida toda e em todas as áreas nas quais me disponho. Estou trabalhando muito atrás dos bastidores, de música a uma tese de doutorado. Posso adiantar que já estou gravando um novo disco de inéditas e que com certeza o espaço entre o segundo e o terceiro disco serão bem menores do que do primeiro para o segundo. Daqui a alguns dias, vamos lançar o clipe do próximo single do Ilha Desconhecida, e com ele voltarei a fazer pequenas apresentações com uma nova formação da banda e mostrando as novidades dessas mudanças que ocorreram nesses quase dois anos fora dos palcos. Acho que duas principais mudanças nesse sentido é a descoberta de uma linguagem nova através da guitarra, e tudo o que esse fascínio pelo eletrônico e a tecnologia trouxeram para o meu trabalho.

Inspirando Sonhos: Como seu tempo escolar, de educação básica, ou suas atividades como pesquisador influenciam em sua arte?

Sou uma pessoa que gosta muito de aprender e, consequentemente, estudar (mas concordo que estudar é bem chato, prefiro tocar, também aprendo em outras dimensões 😉 ). Dos meus 28 anos, mais de 22 anos foram estudando, o maior tempo em escolas públicas, da escola para a universidade e depois para o mestrado e doutorado. Isso me dá uma ideia de realidades distintas e de problemas educacionais no nosso país que fazem com que ele tenha maiores dificuldades para caminhar por conta própria. O papel da escola já começa mal executado pelos nossos governantes, aqueles que formam as crianças são extremamente desvalorizados. Ser um professor dedicado na escola básica nesse país é como ser um herói. É como não, é ser um herói. Acho que, de uma maneira geral, e especificamente no meu caso, tive muita sorte pelo caminho de ter encontrado grandes mestres que me dessem voz e acreditassem em mim. Foram poucos, mas todos muito marcantes e dos quais eu me lembro até hoje. Alguns assistem aos meus shows e é muito lindo encontra-los prestigiando meu trabalho. Por isso carrego em mim a missão de mostrar que é possível ter voz, não importa de onde você vem. Gritar tem sido a minha especialidade, e eu recomendo: gritem! Não se calem diante de nada, de qualquer desconforto ou qualquer meio que você se sinta subjugado e subestimado. Faça barulho e faça o que quiser desde que você não se machuque e não machuque ninguém. Particularmente, da carreira na universidade hoje, o perfil metódico que todo pesquisador precisa adquirir reflete em todos os meus projetos. Estou sempre criando e olhando para o próximo passo, tentando fazer todas as escolhas de uma maneira coerente e, ao mesmo tempo, tendo como parâmetro os sentimentos que me impulsionam para as diversas frentes. Não conseguiria criar nada no qual não acreditasse mais. Portanto, sofro para arrancar nada mais que a verdade de dentro de mim. Mas não escolheria outra vida, aceito, sou muito feliz e sortudo.

Inspirando Sonhos: Um poeta é constituído de dores?

Como disse antes, arrancar a verdade é um processo doloroso. Tocar naquilo que mal está cicatrizado, ou mesmo lidar com aquilo que estava ali o tempo todo, que você nunca teve coragem de mexer, mas que agora, de uma vez por todas, precisa resolver consigo mesmo. Mas é desse processo, de dores e lágrimas, que emergem as coisas mais sublimes, que está talvez entre as poucas que podemos chamar de verdades nessa vida, se é que existe alguma. Em mim cabe mais o nome de criança do que de poeta, porque mesmo depois de crescido, continuei brincando com aquilo que de melhor tiro de mim. A diferença é que vivi demais para encarar o mundo como uma criança, assim como todos nós depois de algum tempo, criei meus espinhos. Então, acho que um poeta pode ser constituído de dores, mas ele passa a vida se despindo delas até atingir o ideal que no fundo é quem ele sempre foi, a criança por baixo dos espinhos.

Inspirando Sonhos: Quais são os sentidos da vida?

Amar e criar. Sendo aquele matéria-prima deste outro ofício.

Inspirando Sonhos: Faça uma pergunta que não fizemos e, lógico, responda da maneira que quiser.

As pessoas estão vez ou outra me perguntando nas redes sociais o que ando ouvindo, e comentando os fast-covers que eu faço no meu Instagram, então me faço essa pergunta num exercício de tentar resgatar os que não saem dos meus fones de ouvido. De álbuns novos, estou extremamente viciado nos dois singles novos do Bon Iver; o já não tão novo, da Elza Soares, “A Mulher do Fim do Mundo”; os discos “Not to Disappear” do Daughter; “The Colour in Anything” do James Blake; “25” da Adele; “Ainda é Tempo”, relançado pelo Criolo; e “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” do Emicida. Álbuns mais velhos mas que continuo ouvindo muito estão o “Guelã” da Maria Gadú; “Vulnicura” da Björk; “Ultraviolence” da Lana Del Rey; “Scratch my Back” do Peter Gabriel; e “Pink Moon” do Nick Drake. Tem outros, mas esses aí estou ouvindo mais nas últimas semanas.

PS – Dabliu nos enviou um material com exclusividade. Uma música em versão demo que, segundo ele, foi gravada de maneira caseira e despretensiosa: “Uma Canção (Cafona) Pra Te Dizer O Que Eu Penso Sobre Você Quando Estou Sozinho”.

(Créditos imagem de destaque: Erick Reis)

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