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Pelo direito de permanecer calada

Por Fernanda Lopes

Pelo direito de permanecer calada. Calada, em silêncio, sem pronunciar qualquer sílaba, murmúrio ou afirmação, qualquer “humhum” será negado àqueles condenados ao direito de permanecer calado. Pelo direito de permanecer calada na fila do banco, no elevador, no ônibus ou na caixa do supermercado, sem puxar qualquer assunto vazio, sem brio, sobre o tempo e a tempestade, sobre a emenda de feriado ou o jogo do campeonato, sobre a demora no atendimento ou o aumento do imposto sobre suplementos alimentares, papel higiênico ou qualquer outra bobagem. Pelo direito de permanecer calada no posto de saúde, sem trocar qualquer mínima impressão sobre o médico mal pago e mal-educado. Pelo direito de permanecer calada na fila do pão e na bilheteria do cinema, e que no cinema o filme seja mudo. Pelo direito de permanecer calada nas tragédias que choram Marias, Clarisses e Marianas, pelo menos dessa vez. Pelo direito de permanecer calada no sofá, ao seu lado, sem dar boa noite ao Bonner, sem gritar com o gato, sem avisar que a lasanha no micro-ondas já está quente e cheia de elementos cancerígenos para te matar. Pelo direito de permanecer calada no fim de tarde, sentada na areia sobre uma canga barata, com as minhas coxas à milanesa, os cabelos ressecados do sal, e com um sol generoso queimando meu rosto e me presenteando com sardas cor de cravo e canela. Pelo direito de permanecer calada ouvindo o mar que nunca se cala, nem abaixa seu volume, nem sai de ritmo, nem entra na retaguarda, nem desafina, nem me escuta. Pelo direito de permanecer calada, abraçando as minhas pernas, respirando lentamente como se fosse possível nesse universo paralelo que se cria na minha mente, aspirar toda a mata atlântica que ainda resta, como se fosse possível me banhar de toda maresia, me encher de toda a brisa marítima, como se fosse possível dançar com sereias, ser uma sereia e com escamas prateadas feitas da poesia de Adélia, cantar e enganar piratas empapuçados de rum, e levá-los para o fundo do Atlântico para comigo ali morar, plantar orgânicos, ter dois ou três moleques e comigo amar. Pelo direito de permanecer calada, pelo direito de estar.

Imagem: Jörg Angeli

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