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Vila Jaú F.C Versus Guaianases F.C

Por Alba Atróz

Em memória de meu querido avô Gonçalo (1937-1998) que gostava de me contar histórias:

“Se Nelson Rodrigues estivesse sentado num daqueles banquinhos de madeira do campo do Vila Jaú, iria ter o privilégio de contemplar o maravilhoso espetáculo futebolístico que lhe daria o mesmo sabor de um FLAxFLU assistido das arquibancadas de um Maracanã. Ambos eram times formados por operários e chefes de família. Homens que se divertem, mas com amor e honra às camisas de seus times. De um lado, o Guaianases, time de tradição e longa história. Time que já revelou craques que até chegaram a jogar no ‘timão’ levados pelo presidente Vicente Matheus. Do outro, o Vila Jaú, time de muita raça e valentia, conhecido por ter uma torcida vibrante, apaixonada, que lota as caçambas dos caminhões da pedreira para ir ver o time jogar em qualquer lugar.

Os arredores do campo tornaram-se pequenos para tão grande público. O campo sem grama maltratava a bola de capotão que se descosturava batendo em pequeninas pedras que compunham um campo desafiador para os atletas. Ali, a bola não rolaria se o jogador não fosse craque. Craque como aquele ponta-esquerda chamado Lindomar que bateu com jeito na pelota para que ela atravessasse o campo e fosse parar nos pés de outro craque chamado Alfonso. Os zagueiros do Guaianases já suados e cansados, nos trinta e cinco minutos do segundo tempo, mantinham-se valentes. Eram guerreiros lutando para proteger sua ‘cidadela’ de seus adversários que vinham velozes e organizados no intuito de perfurar o bloqueio e vencer a batalha futebolística num território que conheciam muito bem. Os jogadores lutavam contra o sol que cegava e ‘cozinhava’ moleiras.

Naquela arena os zagueiros guaianasenses cometeram um erro grave, subestimaram o homem mais velho achando que iria ser fácil tomar-lhe a bola. Contudo, o lateral-direito Alfonso driblou-os como um garoto e chutou forte quando penetrou a área que tinha suas fronteiras marcadas pelo cal. A bola foi com a velocidade de um foguete e entrou pelo canto esquerdo do arqueiro que nem a viu entrar em seu gol. Isso aconteceu quando o Vila Jaú perdia de um a zero devido ao gol de pênalti sofrido e marcado por Anselmo, atacante do Guaianases, aos quinze minutos do primeiro tempo quando Roberval, Zagueiro do Vila Jaú, na euforia de tomar a bola de Anselmo que vinha driblando todo mundo, deu um chega para lá no craque do Guaianases fazendo-o sair rolando para a lateral, ato imperdoável e que fez com que o juiz não pensasse duas vezes para dar pênalti contra o Vila Jaú.

Após o jogo, os torcedores do Vila abraçaram o seu Alfonso por ele ter feito o gol de empate.

– Agora que venha o Atlas… – disse um torcedor.

– Não, acho que o próximo jogo é contra o Botafogo… – corrigiu outro.

– Não, não, acho que vai ser contra o Santa Cruz… – arriscou um outro.

Não importava contra quem seria o próximo jogo. O fato é que aquela partida empatada tinha sido muito empolgante.

Uma agitação de sentimentos, um espetáculo que durante muito tempo falariam pela várzea afora. E, ainda, é bem possível encontrar hoje alguns velhinhos remanescentes, às margens dos poucos campos que resistiram à especulação imobiliária, contando a um grupo de jovens interessados esse e outros momentos de uma época que se recorda com muita saudade.”

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